Como montar um estúdio de gravação em casa - parte 2

Como montar um estúdio de gravação em casa - parte 2

Ter um estúdio em casa é tão fácil que qualquer um pode gravar um disco no conforto do lar. Nas últimas duas décadas, e com o acesso a ferramentas digitais, criar música sem sair do quarto, da garagem ou da cave tornou-se bastante comum, especialmente no reino da música electrónica ou do hip hop, que não usam muitos instrumentos. 

Mas a tendência não é de agora. Há décadas que os músicos andam a gravar discos em estúdios caseiros ou improvisados - se bem que muitas vezes com acesso a equipamento de qualidade profissional - para fazer as suas obras primas. Vamos conhecer alguns dos mais importantes, de Bruce Springsteen a Billie Eilish. 

Nebraska (1982)
Bruce Springsteen 

O Boss, talvez esmagado pelo impacto que a sua música teve no final dos anos 70, decidiu tirar umas férias da banda que o acompanhava - a mítica E Street Band, que ainda continua a ser o suporte do músico americano. Pegou num gravador de quatro pistas e fechou-se em casa com a guitarra para assentar umas ideias. O objectivo era apresentar estes rascunhos mais tarde à banda para serem gravadas em estúdio, com todos os instrumentos. 

Na noite de 3 de Janeiro de 1982, Bruce Springsteen gravou 15 músicas com uma guitarra acústica, usando as pistas livres para acrescentar mais vozes, outras guitarras e harmónica. Nas semanas seguintes, o registo ficou a marinar no bolso do Boss. Para Springsteen, as músicas eram tão pessoais e o registo intimista que não iriam resultar tão bem no contexto da banda e decidiu editar um disco com o material que tinha.

A gravação analógica está cheia de imperfeições sonoras, que se ouvem bem no disco. Mas também se ouve uma obra monumental de um dos músicos mais sinceros que podemos encontrar. Nebraska foi editado como estava e, mesmo sem ter tido direito a tour na altura, ficou como um dos álbuns definitivos da carreira de Bruce Springsteen, com uma influência gigantesca nas gerações de músicos que vieram depois.

Hoje em dia, Bruce Springsteen teria gravado com alta fidelidade com um gravador portátil como o Roland R07.   

Exile on Main Street (1972)
The Rolling Stones 

No início dos anos 70, os impostos eram o maior problema dos já muito famosos e ricos Rolling Stones - as mulheres, as drogas e as zangas na banda eram apenas parte do seu estilo de vida. Para fugirem às questões fiscais, decidiram mudar-se para o sul de França, onde alugaram uma villa para gravar um disco. 

O exílio fiscal inspirou o título deste álbum, gravado num isolamento reduzido já que o ambiente rock’n’roll era o habitat natural da banda. Outros tempos. Os Rolling Stones já estavam habituados a gravar fora das paredes de estúdios convencionais, tendo usado estúdios móveis noutras ocasiões. Ou seja, os profetas do rock trouxeram a montanha até si e puseram-na na cave, enquanto alguns deles habitavam os pisos superiores. 

Keith Richards, o locatário da casa, tem boas memórias dessa altura - pelo menos foram essas que lhe sobraram -  especialmente das jam sessions que faziam com os amigos que os visitavam e que acabaram por moldar o espírito descontraído deste disco. 

OK Computer (1997) 
Radiohead 

Da villa para a mansão, 25 anos depois. Os Radiohead gravaram um dos álbuns mais importantes da música moderna - há um Antes do OK Computer e um Depois - numa mansão histórica inglesa, da atriz Jane Seymour. No acordo entre as duas partes, a banda ficou responsável por alimentar o gato da proprietária, enquanto esta estivesse ausente.

Com este negócio muito favorável, os Radiohead tiveram bastante tempo e conforto para gravar um disco cujo impacto ainda hoje se faz sentir. Todas as faixas do disco, à excepção de uma, saíram dessas sessões. Como os Rolling Stones, tiveram acesso ao melhor equipamento a que tinham direito, sendo uma das bandas mais populares da altura. 

Entram na lista por terem evitado o estúdio e conseguido um dos melhores negócios de arrendamento de sempre. Vale a pena sondarem os vossos conhecimentos e descobrir se alguém tem uma casa ou um palacete para tomarem conta ao mesmo tempo que gravam o vosso disco.

The Downward Spiral (1994)
Nine Inch Nails

10050 Cielo Drive, Benedict Canyon, Los Angeles. A morada pode não vos dizer nada, mas se vos dissermos que é a casa onde os seguidores de Charles Manson assassinaram Sharon Tate, num dos mais traumáticos eventos da cultura americana, se calhar já faz mais sentido. 

Em 1992, Trent Reznor, líder dos Nine Inch Nails, já tinha uma reputação no meio musical suficientemente sólida que lhe permitia escolher esse cenário para gravar o seu segundo álbum. A casa acabou por ser instrumental no processo de gravação. Literalmente. Muitos dos sons que acabaram por fazer parte das músicas são da própria casa, de talheres ao som da casa de banho.

The Downward Spiral foi um dos momentos musicais mais importantes dos anos 90, pelo caos, pela estética sonora agressiva, pela irreverência dos músicos que nele participaram. Seria o mesmo se fosse gravado no ambiente controlado e asséptico de um grande estúdio? Provavelmente, não.

When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (2019)
Billie Eilish 

O melhor e mais recente exemplo do potencial de um estúdio caseiro é o bem sucedido disco de estreia de Billie Eilish. Esta adolescente gravou um dos maiores discos pop dos últimos anos no conforto do lar e denuncia isso logo nos primeiros segundos do álbum. O estúdio caseiro do seu irmão, Finneas, chegou perfeitamente para criar um dos maiores fenómenos musicais da nova geração. 

É claro que a ajuda do irmão, que por acaso até é um excelente produtor musical, foi fundamental. Mas a excelência surge com a aprendizagem e a prática. Podem desenvolver  ambas a partir de vossa casa.  As regras mudaram com o sucesso de Eilish, e a indústria olha para o fenómeno da gravação caseira de outra forma. Não se sabe se o próximo grande sucesso de vendas sairá do quarto de um adolescente com queda para a música.

Existem muitos outros exemplos de discos gravados fora dos estúdios que fizeram a diferença, como o “Odelay” de Beck, “For Emma, Forever Ago” de Bon Iver, as “The Basement Tapes” de Bob Dylan com os The Band, e os primeiros álbuns dos Boston e de James Blake, que têm os mesmos nomes dos autores.

Não precisam de uma mansão ou de uma villa no sul de França para gravar o vosso disco mas, se apenas tiverem que alimentar o animal de estimação residente, aproveitem.

Precisam só de inspiração, dedicação e o material essencial para captarem as ondas sonoras da vossa imaginação com a melhor qualidade. Essa parte é connosco. Visitem a nossa loja online. 

Publicado no dia 2020-12-02 Atualidade 0 71

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